Hospital de Cascavel: o mal crônico dos recursos insuficientes

EdnaldoNos 65 anos de existência – foi fundado em 1948, pelas irmãs vicentinas – o Hospital e Maternidade Nossa Senhora das Graças tem sido sempre o guardião da saúde do povo, tanto de Cascavel como das cidades vizinhas. É a quem se recorre nas horas de desespero, quando o inesperado acontece e quando o socorro próximo de casa falha.

Ednaldo Lopes Lima, , assessor da direção do hospital FOTO: EDUARDO DANTAS

Nos últimos anos, a imagem positiva da instituição vem sofrendo arranhões. Há queixas da população quanto à ausência de médicos nos plantões do setor de emergência e muitas vezes a necessidade de comprar nas farmácias medicamentos e outros materiais que não estão disponíveis no hospital, etc. Nesta entrevista com Francisco Ednaldo Lopes de Lima, assessor da direção do hospital, onde é funcionário há 25 anos, procuramos esclarecer as razões da crise e os meios de alterar essa situação.

Ednaldo, começando pela pergunta mais incômoda: o hospital tem falta de recursos ou a crise se deve a problemas de gestão?

Quisera que se pudesse responder com tanta simplicidade a essa pergunta. Mas uma coisa posso adiantar: problema de gestão não é porque é graças à administração eficiente que ele ainda está funcionando, na condição de Hospital Polo (que atende a pacientes provenientes de outros municípios). A Maternidade, o Laboratório, a Ultrassonografia, a Eletrocardiografia e tantos outros setores funcionam de maneira adequada e compatível com a estrutura do hospital e as necessidades da região.

Mas os recursos para pagar as atividades do hospital são insuficientes. Por isso a nossa contabilidade vive no vermelho, tendo de recorrer a empréstimos para cobrir o vazio entre o que se recebe e o que se gasta. Assim, não podemos pagar aos profissionais a remuneração que receberiam em outras instituições; também deixamos de adquirir certos insumos como soro, oxigênio, medicamentos e outros materiais que integram o atendimento clínico.

Não há sobras em caixa para se investir na compra de aparelhamentos mais modernos e assim por diante. Essa carência de recursos cria um estresse muito grande, dificulta o gerenciamento dessa estrutura em termos materiais e humanos. Afinal, são cerca de 120 funcionários de nível médio e em torno de 55 médicos atuando no hospital.

Mas as fontes de financiamento têm falhado?

A questão não é bem essa. Os financiadores são o Governo Federal, através da contratação dos serviços pelo SUS (Sistema Único de Saúde); o Governo do Estado, com o Programa de Fortalecimento dos Hospitais Polo, e a Prefeitura de Cascavel, nossa parceira no atendimento de emergência.

A defasagem dos valores pagos pelo SUS aos hospitais – a tal tabela, que não é atualizada há muitos anos – é um problema bastante conhecido. A maioria dos itens usados no atendimento clínico rotineiro – agulhas, soro, dipirona,etc. – são adquiridos pelo hospital a um custo às vezes três vezes maior do que o valor reposto pelo SUS. Está certo que o hospital faz o atendimento de 60% pelo menos financiado pelo SUS e o restante pode ser cobrado. Mas daí já se vê que é preciso ficar jogando com as cifras de uma conta para outra até conseguir um relativo equilíbrio.

No começo do ano, devido a mudanças no sistema de pagamento do Governo do Estado, ficamos sem receber as parcelas de 90 mil reais durante quatro meses. Foi o período mais crítico vivido no hospital nos últimos anos, porque 360 mil reais fazem falta na cobertura dos compromissos financeiros. Com a Prefeitura, repartimos as dificuldades para o atendimento no setor de Emergências.

Quais as dificuldades neste setor?

A mais evidente delas é de fechar a escala dos plantões médicos. Só temos condições de pagar, por um plantão de 12 horas, 900 reais. Mas os hospitais de Fortaleza estão pagando aos profissionais entre 1.200 e 1.300 reais pelo mesmo período. Tem condição de competir? Além disso, as demandas aumentaram muito nos últimos anos. Como a população já sabe que no hospital sempre tem – ou deve ter – médico, enquanto no posto de saúde às vezes não tem, o hospital é a segurança de que o doente vai ser atendido. Nos períodos mais críticos, como a época das viroses ou do aumento de incidência da dengue – o clínico consulta até 160-180 pessoas num dia. É humanamente impossível fazer um trabalho de qualidade com tantos pacientes.

Para ter um certo controle e cuidar de fato dos doentes com a vida em situação de risco, as enfermeiras e os técnicos precisam fazer uma certa classificação para encaminhar mais rapidamente os casos mais urgentes ao médico. Chamamos de amarelo ou vermelho, de acordo com o protocolo de emergência. Muitas vezes esses procedimentos não são entendidos, porque quem chega ao hospital com algum mal-estar quer, precisa ser atendido …e o mais rapidamente possível. Por mais que se persiga esse objetivo, como acontece no Hospital e Maternidade Nossa Senhora das Graças, é algo muito difícil de se conseguir.

Qual é a participação da Prefeitura, através da Secretaria de Saúde, na cobertura do atendimento de Emergência?

Desde a contratualização dos serviços de Saúde Pública, em 2007, a Secretaria municipal de Saúde faz o repasse dos recursos do SUS e os 90 mil do Governo do Estado. A quota do Município para o custeio é de R$ 21.148,45.

Além disso, ela paga o plantão de 24 horas de 1 dos 2 médicos e mais o expediente de 8 horas de 1 enfermeiro(a) e 1 técnico(a) de enfermagem – e esse é um ponto de defasagem, porque o hospital tem atendimento 24 horas.

A Secretaria de Saúde também é responsável pelo gerenciamento do sistema de transporte dos pacientes – as 3 ou 4 ambulâncias do Município e as do SAMU.

E se o atendimento nos postos de Saúde fosse eficiente, haveria alteração nesse quadro?

Ah, se os postos de atenção básica realizassem a função para a qual foram criados, a situação no hospital seria muito diferente. Aliás, temos certeza de que quando a Unidade de Pronto Atendimento – a UPA – e o Centro de Traumato-Otopedia da Prefeitura de Cascavel estiverem funcionando mesmo haverá um alívio muito grande nos plantões. Aí então o hospital poderá exercer sua verdadeira vocação de Posto de Atenção Secundária de Saúde, realizando as internações e encaminhamentos necessários depois que o paciente tiver sido atendido nos postos de atenção primária.

Você acredita que exista solução para a crise da Saúde Pública no Brasil? E em Cascavel?

Sou otimista e acredito na nossa capacidade de encontrar uma solução para este problema, que não é local, ocorre em todo o Brasil. Todos os hospitais filantrópicos estão endividados e funcionando com dificuldades. E no dia em que esses abnegados resolverem fechar as portas, então será o verdadeiro caos na saúde! Penso que chegará o momento em que o Ministério da Saúde terá de atualizar os valores da tabela do SUS e diminuir problemas financeiros de quem assumiu tantos serviços que deveriam ser prestados pelo Governo. Pessoalmente – não estou falando em nome das irmãs nem do hospital – sou favorável à contratação de médicos estrangeiros, desde que se comprove a sua qualificação profissional.

Em termos de Cascavel, acho que é possível trabalhar juntos para superar esses gargalos que se estreitaram ainda mais recentemente. A curto prazo, não vejo condição de o hospital deixar de ter a demanda atual – então, para evitar as reclamações, será preciso reestruturar e talvez ampliar o quadro de profissionais à disposição dos plantões – médicos, enfermeiros(as) e técnicos(as) de enfermagem.

Não é possível viver com tantos sobressaltos: os leitores desta entrevista não podem imaginar a preocupação que toma conta da equipe do hospital toda vez que o médico telefona para avisar sobre a impossibilidade de comparecer ao plantão. Tem que telefonar imediatamente para todos os clínicos conhecidos, conhecidos de parentes e amigos, e rezar para que algum deles possa cobrir a ausência. É uma responsabilidade muito grande….

Eduardo Dantas

Fonte: Nossa Revista

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